Envelhecer no Brasil: do preconceito à aposentadoria indigna

CMM
“Os velhos não servem pra nada. São um peso para a família!”, são frases mais corriqueiras do que se imagina, principalmente com o envelhecimento da população que acontece no país. Frases muito comuns num sistema que decanta a eterna juventude em prosa e verso, mostrando que envelhecer no Brasil está sendo algo muito difícil.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a expectativa de vida no país em 2015 era de 75,5 anos. E como as famílias têm diminuído de tamanho, a estimativa é de que a população de idosos supere a de crianças. Os estudos mostram que a população idosa passará de 19,6 milhões, em 2010, para 66,5 milhões de pessoas, em 2050. A população atual do Brasil é de pouco mais de 208 milhões.

Por causa disso, foi criado o Estatuto do Idoso em 2003, que em seu Art. 2º assegura que os idosos devem ter mantidos “todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana” e “todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade”. Para o médico especialista Jorge Félix, essa realidade “é uma questão socioeconômica que o país realmente não está preparado para enfrentar. Nem o setor público, nem as empresas, nem os próprios indivíduos – que ainda não têm a consciência plena de que irão viver, em média, até 90 anos – estão preparados”.

O Instituto Datafolha divulgou nesta terça-feira (28) uma pesquisa onde mostra que, para 90% da população, existe preconceito em relação aos idosos. Muito embora eles apareçam no levantamento como responsáveis, educados e honestos, também são vistos como pouco produtivos, sem criatividade, pouco ativos, muito preconceituosos e não sabem se comunicar.

Além de enfrentar as dificuldades inerentes ao avanço da idade, os idosos enfrentam o dilema de receber uma aposentadoria insuficiente para uma vida equilibrada. Segundo a Secretaria de Previdência Social, existem no país pouco mais de 19 milhões de aposentados, sendo que cerca de 70% deles recebem um salário mínimo por mês, que é de R$ 937 e no ano que vem será de R$ 965, se o presidente ilegítimo Michel Temer não diminuir novamente.

Por isso, 33,9% dos aposentados continuam trabalhando, de acordo com pesquisa, de 2016, do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas. Para 46,9%, a renda é insuficiente por isso precisam continuar trabalhando. Já 23,2% sentem a necessidade de “ocupar a mente”, enquanto 18,7% querem sentir-se produtivos e 9,1% trabalham para ajudar no orçamento doméstico.

“Isso é coisa de velho”

E ainda de acordo com dados de 2016 da Organização das Nações Unidas (ONU), um em cada três idosos brasileiros apresenta alguma limitação funcional., sendo que 80% — cerca de 6,5 milhões de indivíduos — recebem ajuda de familiares para realizar alguma atividade do cotidiano, mas 360 mil não podem contar com o apoio dos parentes. Mesmo assim, o preconceito corre solto para dificultar a vida de quem já fez o que pode para tornar as coisas mais fáceis. Tanto que ganha força o termo gerontofobia (preconceito contra os idosos).

Muitas vezes quando há um conflito entre idosos e jovens ouve-se a frase “isso é coisa de velho” para justificar o desacordo e não resolver o problema pendente. Estudiosos apontam a convivência entre as diferentes gerações para acabar com o preconceito, além de mostrar aos mais jovens o que representa o processo de envelhecimento e que eles também chegarão lá um dia.

Como se vê a vida das pessoas acima dos 60 anos não está nada fácil num país tomado pelo ódio. Inclusive internautas criticam os assentos preferenciais em transporte público.

 

Maus-tratos

Mas ocorrem relatos de violência e maus-tratos a idosos, justamente por quem mais deveria cuidar deles, os familiares. Em São Paulo, Benedito, de 82 anos, denuncia violência física em uma entidade filantrópica. O estado é o campeão de relatos de maus-tratos a idosos pelo Disque 100.

Já o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios apresenta o Mapa da Violência contra a Pessoa Idosa do Distrito Federal, no qual, em 2016, foram registradas 1.157 denúncias de violência contra idosos, contra 1.097 em 2015. Pior ainda é que em 59,1% das reclamações referem-se a violências causadas pelos próprios filhos.

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro anuncia ter recebido recebeu 1.406 denúncias de violência contra idosos e pessoas com deficiência. No mesmo período de 2016, os registros foram de 611 denúncias.

Por isso, Bahij Amin Auh, vice-presidente do Conselho Nacional da Pessoa Idosa, acredita na necessidade de “um amplo programa educacional para que toda a população tenha noções básicas sobre o processo de envelhecimento, para que valorize e respeite a pessoa idosa”.

Fonte: Portal CTB